comVinho – onde comprar, bom e barato, dicas e experiências enófilas

Verdades inconvenientes sobre vinhos

Segundo eu mesmo:

  • Você pode não gostar de um vinho, mas isso não significa que ele seja ruim, apenas não agrada ao seu paladar.
  • Bom vinho é aquele que consegue explorar e revelar as melhores características de seu terroir.
  • Ao beber um vinho é importante notar a intenção de seu produtor. Não compare Mercedez com Ferrari.
  • Aprender a tomar os brancos, espumantes, doces etc. é essencial para expandir o paladar.
  • No Brasil, principalmente em se tratando de vinhos do velho mundo, comemos gato por lebre.

[updated: 11/09/09, 02:42]

  • O Brasileiro médio prefere um demi-sec a um Brut.

Discorde ou acrescente, por favor! O campo de “Comentários” é todo seu.

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Capítulo 12 – Um best-buy ou o bom uso do decanter? O mito da metade da garrafa

Venho dividir com vcs minhas impressões de um legítimo Napa Valley: COURTNEY BENHAM, Napa Valley, Cabernet Sauvignon com Merlot (78% – 12%), 2006. Como diriam aqui nas terras do Tio Sam, “waaaaaaaaay better” se comparado ao Running with the Scissors. Trata-se de um vinho tinto com aquilo que eu – com minha pouca experiência por aqui – diria que concentra as principais características dos Cabernet Sauvigon daquelas bandas.

É um vinho rico e intenso, com pouca madeira e muita fruta madura, que vira um pouco gosto de tostado ou fumo (vai saber!), desde o começo bastante aveludado, e graças aos céus, de final longo! Na internet, vi que a Wine Enthusiast classificou com 87 pontos. Na loja, paguei USD18 s.m.j. Nota 8,2.
Bom, após essas informações sem muita precisão técnica, vamos para onde eu posso contribuir: a experiência de beber o vinho. Pessoal, aqui abro um enorme parênteses: quando devo usar o decanter? “Devo”? Há motivo para tal? Quando um vinho comporta e quando não comporta um decanter? Olhem, conversando com um expert da Total Wine, um francês radicado aqui há 8 anos, ele me disse o seguinte: salvo raras exceções, sempre devemos nos socorrer do decanter quando possível. Ele usa para tudo, e na maioria das vezes, o delta-T é de cerca de 2 horas. Eu me contendo com 30 min na regra geral, com direito a 45min para poucas garrafas (via de regra, a 2ª garrafa do momento).
Na minha opinião, o decanter te dá 30min (ao menos) de vantagem na degustação de uma garrafa. Salvo aqueles vinhos muito velhos e delicados, tudo aquilo que refere-se ao dia-a-dia (e posso arriscar dizer que aplica-se a tudo de até uns 8 a 10 anos de idade) merece um decanter.
Bom, depois de puxar tanta sardinha para o lado do tal do decanter, volto ao Courtney Benham: menos de 10 min. de respiro e já fui prová-lo. O primeiro gole estava alcoólico, culpa dos 13,9ºGL. O resto, foi uma maravilha. Talvez por ser novo, assim que você bebe a primeira comparação é com um vinho frutado com final longo: Barolo na cabeça, eu pensei. Mas aí, poucos segundos depois mostraram aquela sensação que eu curto muito de um corte aveludado de Cabernet, quase adstringente. E o corpo vem na sequencia, e persiste na boca com um final longo. Delicioso. Faltou uma carne para acompanhar.
Bom, se eu escrever algo além disso para essa garrafa, seria pura ficção não-científica. Então vamos ao último tópico: o mito da 1/2 garrafa (tm Jig), que novamente comprovei hoje. Num tenho muita resposta, nem mesmo muitas colocações a respeito, senão um punhado de dúvidas fracas que não nos levarão a muito lugar que não um desabafo coletivo. Porque catzo toda garrafa fica melhor após bebida a 1ª metade dela? Seria o álcool indo embora? Ou seria ele chegando (no nosso fígado)? Seria a tal da oxidação? Meias garrafas seriam o caminho da salvação (hehehe … me diverti com essa; mas adianto que não é a saída)?????
Enfim, com o Courtney Benham não foi diferente.
Para a posteridade, fica a dica desse vinho. Eu recomendo.

ASF

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Vinho para todos. Todos mesmo!

Eu defendo este lema, mas talvez de uma forma um pouco diferente do que o habitual. É cada vez mais raro o enófilo conservador que preserva o seu costume de degustar o vinho cheio de pompa e cada vez mais comum o discurso não menos chato dos “anti-enochatos”. São pessoas que até gostam de vinho, mas por não se interessarem em estudar minimamente o assunto, assumem que qualquer um que sabe diferenciar um Pinot Noir de um Malbec, é um enochato.

Não é bem por aí. Precisamos sim popularizar o vinho e evitar o enochatismo fora de hora. O próprio comVinho surgiu com esta missão, não apenas o blog, mas através de um projeto que muito em breve estará no ar, para facilitar a vida de todos nós consumidores. Isso significa tornar o vinho mais acessível em preço e também como informação, explicar de forma simples o caminho para uma boa compra e a melhor escolha de rótulos para cada situação. Existem muitos blogs sobre o assunto com abordagens variadas, inclusive esta visão mais pragmática. O Enoblogs, aliás, é uma ótima iniciativa para organizar toda esta informação.

Porém, não podemos cair no outro extremo. Falar sobre vinhos, degustar, prestar atenção nas características olfativas e gustativas não só é necessário para a indústria como é divertido para os apreciadores. Assim como na música, é possível aumentar o seu prazer de beber um vinho se você desenvolver o seu paladar, sua memória e capacidade de fazer associações.

Muitas pessoas gostam e entendem de vinhos, mas evitam falar qualquer coisa sobre o que estão sentindo ao degustar para não parecer um enochato, mesmo em situações absolutamente apropriadas para isto. Nada contra quem quiser passar a vida inteira tomando vinho sem nunca compará-lo a uma fruta, ou buscar desvendar um aroma diferente. A maior parte dos consumidores nunca fará isto. Mas que deixem os interessados se aprofundar e respeitem este conhecimento, assim como paramos para ouvir os comentaristas de futebol (mesmo quando não há nada a ser dito).

É evidente que há situações completamente inapropriadas para a degustação, nem precisamos nos alongar nos exemplos. Mas há muitas outras que são deliciosamente propícias para isto. Foi justamente por esta falta de bom senso que surgiram os anti-enochatos.

Se você gostaria de aprender mais sobre vinho, mas acha que não é capaz de fazer associações, você está errado. Crie sua confraria, reúna os amigos mais próximos (e com o mesmo interesse)  e aproveite para falar sobre vinhos, degustar, harmonizar e aprender, sem receio de não gostar daquele vinho de 92 pontos do Robert Parker. Seja educado e deixe de fora quem não gosta de nada disso. Cada chato no seu galho, não é mesmo?

Beber e falar sobre vinhos com os amigos é um ótimo programa. É prazeroso e cultural. Conversas sobre vinhos sempre envolvem conhecimentos interessantíssimos sobre geografia, história e curiosidades. É diversão na certa.

Como tudo neste vida, o segredo é o equilíbrio. Há de existir vinhos para todo e qualquer tipo de consumidor. E há de todo e qualquer tipo de consumidor entender que existem situações adequadas para cada tipo de consumo. Assim eu espero.

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Capítulo 2 – Correndo com tesouras, o conceito de “missão, visão, valores” com bom humor

Voltei.

Vim para falar de um tinto, Cabernet Sauvignon 2006, da Costa Central da Califórnia.
Antes de tudo, vou dividir uma percepção: aqui, muitos rótulos de vinhos são criados com idéias peculiares, sendo bem conservador.

Vamos ao que interessa:  RUNNING WITH SCISSORS, Central Coast, Cabernet Sauvignon, 2006. Uma peça rara, um vinho tinto nota 5,43 (de 0 a 10 na minha escala, calma que aos poucos vcs. vão saber fácil o qto isso significa).

scissors

Fui na Total Wine e, numa conversa com os ótimos vendedores, cheguei a esse rótulo. Já estava com meu carrinho cheio para repor minha adega pós-transferência, então pedi pelos best-buys mais em conta. Cheguei a essa garrafa, na casa dos USD10.

Na primeira olhada, me saltou aos olhos o nome: “Correndo com Tesouras” (tradução própria). Estranho, não? Fui ao rótulo “dos fundos”, e li uma cômica história. A Running With Scissors Vineyards acreedita estar num mundo de duas crenças:  (i) de que não se deve correr com tesouras, e (ii) de que não se vende vinho premiado abaixo de USD15. E têm a convicção de que a segunda regra existe … para ser quebrada!

Posto isso, eles oferecem um vinho com a tradicional fruta madura da Costa Central californiana (região norte de Monterey) – basicamente as cherries – , de com bastante corpo, para acompanhar uma carne vermelha ou um prato carregado no tempero.
Na boca, não percebi muita madeira, se muito deve estagiar em barris por no máx. 6 meses.  É um vinho redondo, mas de uma impressão apenas, com final não tão longo.

A comparação imediata é com um Amarone italiano, e creio que isso diz muita coisa. Como nos cartazes estudantis da época da Ditadura, “ame-o ou deixe-o” (tm FLTG, com todas as pompas e circunstâncias!). Eu o deixei, depois de 3 taças – o gosto do Grana Padano ficou tímido perante esse vinho. Minha esposa também o deixou na seqüência. Mas vale o registro.

ASF.

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