comVinho – onde comprar, bom e barato, dicas e experiências enófilas

Capítulo 2 – Correndo com tesouras, o conceito de “missão, visão, valores” com bom humor

Voltei.

Vim para falar de um tinto, Cabernet Sauvignon 2006, da Costa Central da Califórnia.
Antes de tudo, vou dividir uma percepção: aqui, muitos rótulos de vinhos são criados com idéias peculiares, sendo bem conservador.

Vamos ao que interessa:  RUNNING WITH SCISSORS, Central Coast, Cabernet Sauvignon, 2006. Uma peça rara, um vinho tinto nota 5,43 (de 0 a 10 na minha escala, calma que aos poucos vcs. vão saber fácil o qto isso significa).

scissors

Fui na Total Wine e, numa conversa com os ótimos vendedores, cheguei a esse rótulo. Já estava com meu carrinho cheio para repor minha adega pós-transferência, então pedi pelos best-buys mais em conta. Cheguei a essa garrafa, na casa dos USD10.

Na primeira olhada, me saltou aos olhos o nome: “Correndo com Tesouras” (tradução própria). Estranho, não? Fui ao rótulo “dos fundos”, e li uma cômica história. A Running With Scissors Vineyards acreedita estar num mundo de duas crenças:  (i) de que não se deve correr com tesouras, e (ii) de que não se vende vinho premiado abaixo de USD15. E têm a convicção de que a segunda regra existe … para ser quebrada!

Posto isso, eles oferecem um vinho com a tradicional fruta madura da Costa Central californiana (região norte de Monterey) – basicamente as cherries – , de com bastante corpo, para acompanhar uma carne vermelha ou um prato carregado no tempero.
Na boca, não percebi muita madeira, se muito deve estagiar em barris por no máx. 6 meses.  É um vinho redondo, mas de uma impressão apenas, com final não tão longo.

A comparação imediata é com um Amarone italiano, e creio que isso diz muita coisa. Como nos cartazes estudantis da época da Ditadura, “ame-o ou deixe-o” (tm FLTG, com todas as pompas e circunstâncias!). Eu o deixei, depois de 3 taças – o gosto do Grana Padano ficou tímido perante esse vinho. Minha esposa também o deixou na seqüência. Mas vale o registro.

ASF.

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Sideral, Tarapacá Reserva Privada e o Wente, californiano

Os últimos dias foram cheios de ótimos vinhos, mas vazios de atualizações no blog. Para não perder o que ainda está saborosamente presente em minha memória, vou deixar as dicas em formato simplificado.

Sideral, 2003 – Viña Altair – Chile
Sideral, 2003 - Viña Altair - ChileSem dúvida nenhuma um dos grandes chilenos. Este curioso blend de Cabernet Sauvignon 84%, Merlot 10%, Syrah 4% e Sangiovese 2%, foi considerado o Grand Cru chileno. O bouquet é absolutamente espetacular com qualidade confirmada na boca. Deve evoluir por mais uns bons 3 ou 4 anos. Não é barato, mas ainda assim é uma boa relação qualidade / preço. R$ 148,00 na adega Brasil e vale cada centavo.

Tarapacá Reserva Privada, 2005 – Chile
Com seis uvas diferentes, sendo a predominância de Syrah e Cabernet Sauvignon, este ótimo chileno tem classe. Ele teve a infeliz responsabilidade de nos acompanhar após o Sideral, o que evidentemente, pelo contraste, o deixou em desvantagem. Ainda assim, excelente estrutura, taninos macios, cassis e um pouco de menta na boca. Não achei lojas online para comprá-lo, mas custa cerca de R$135,00.

Wente Beyer Ranch Zinfandel, 2005 – USA
Wente Beyer Ranch Zinfandel 2005 Tive poucas oportunidades de tomar bons vinhos americanos. Este, do vale do São Francisco, foi uma ótima experiência. Corte com 4 uvas, sendo a principal, a não muito popular por aqui Zinfandel, é um vinho de personalidade. Macio, lembrando a Merlot, com boa presença de taninos e interessantes notas vegetais é um vinho “carnudo”. No momento está indisponível no site meuvinho.com, mas acredito que seja na faixa dos R$60,00.  Vale a experiência!

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Harmonização – você entende muito mais disto do que imagina

É impossível falar sobre vinhos sem pensar em harmonização. Até parece que é alguma coisa muito complexa, técnica, apenas para experts. Não é. Harmonização é apenas a combinação entre duas ou mais substâncias em nossa boca. Você harmoniza alimentos todos os dias quando escolhe a comida em seu prato, o que vai perto ou em cima do que e qual alimento deve ser combinado com outro antes de ser levado a sua boca.

Há duas grandes variáveis que determinam se uma harmonização é boa ou ruim para o nosso paladar: 1) as características químicas das substâncias com as reações provocadas por elas em nossos sentidos e 2) o nosso gosto, experiência, memória gustativa e olfativa.

A primeira, podemos dizer que é quase uma ciência exata. Sentimos o doce, amargo, azedo e salgado em nossa boca por motivos biológicos. Cada uma destas sensações em regiões diferentes da língua (papilas gustativas), bochechas e olfato.Veja mais detalhes aqui.

Importante ressaltar que nenhuma destas quatro sensações gustativas são opostas. Diferentemente do que costumamos falar, o doce não é o oposto do salgado, ou amargo. Um café, por exemplo pode ser bastante amargo mas também pode trazer a sensação do doce. Eu eu, que não coloco açúcar em café de forma alguma, adoro sentir o doce suave em um bom café expresso e bem tirado. Os vinhos, por exemplo, não raramente são salgados e azedos, doce e amargo, tudo isso ao mesmo tempo provocando dezenas de diferentes sensações em nossa boca e olfato.

Porém, o componente essencial para uma boa harmonização é o tom pessoal que cada um de nós acrescenta a este processo, o que chamamos de gosto. Durante as reações químicas de nosso paladar, o cérebro procura relacionar as sensações que estamos sentindo com outras antes já experimentadas. Por isso que tomamos vinhos com aromas de cassis, frutas vermelhas ou hortelã. São relações que estabelecemos de uma determinada sensação com outras similares que já tenhamos experimentado no passado em uma outra substância.

É comum que estas relações sejam compartilhadas entre diferentes pessoas, já que as características químicas das substâncias são as mesmas e devem provocar reações e memórias parecidas para todos nós. Porém, não é raro, ainda bem, que haja divergência nestas comparações e que determinadas sensações sejam mais prazerosas para uns do que para outros. Valores sentimentais, lembranças e experiências pessoais são determinantes para compor o nosso gosto.

Desta forma, tão importante quanto experimentar, testar e combinar as substâncias é traças as relações. As elaboradas descrições de vinhos que chegam a comparar o sabor da uva com “caixas de lápis de cor, coloridos”, por exemplo, apesar de muitas vezes parecerem ridículas, são importante. Não apenas para tentar traduzir as sensações que determinado vinho provoca para quem está experimentando, mas também para uma certa “categorização” pessoal. Ao estabelecer estas relações você está documentando a sensação que você sentiu, o que poderá ajudá-lo no futuro a lembrar do gosto daquele vinho e, inclusive, perceber se o seu paladar evoluiu.

Deguste, combine, provoque o seu paladar e anote o que você sentiu. Mesmo que seja uma relação aparentemente absurda, não faz mal, a combinação das sensações e o exercício em seu cérebro para relacionar os sabores é de imensa importância para a evolução sou seu paladar.

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Pergunta do dia: você já tomou vinhos de sobremesa?

Provavelmente já. O mais popular, o vinho do Porto é bastante comum e costuma ser oferecido como sobremesa em restaurantes ou jantares. É interessante, mas não o meu preferido. Recentemente me apaixonei por Sauternes. E como esta relação tem se intensificado ultimamente, vou falar um pouco mais sobre ele.

Sauternes Sauternes é uma região ao sul de Bordeaux, na França, margem esquerda do rio Garonne. E como de costume com os vinhos franceses, da região de plantio e produção do vinho dá-se o nome, ou o que podemos chamar de “tipo”, do vinho. Predominantemente de cepa Semillion, o Sauternes é um vinho branco, mas muito amarelado, dourado. Normalmente cítrico no nariz e um excelente adocicado na boca com sabores de frutas, como maçã, pêssego, banana entre outras. É simplesmente delicioso para acompanhar sobremesas com frutas, por exemplo, um bom Tarte Tatin, típica sobremesa francesa com maçã. Ou também, a clássica harmonização de Sauternes com foie gras, o doce do vinho que “quebra” o alto teor de gordura do fígado de ganso.

Porém, o mais interessante sobre o Sauternes está no processo que ocorre ainda no cultivo da uva. Este néctar divino só é possível por causa de um fungo, comum na região, que apodrece a uva durante as húmidas manhãs de outono. Botrítis, o tal fungo, ataca a casca das uvas, secando-as e concentrando o açúcar, acidez, viscosidade e sabor da uva. Ingredientes perfeitos para um vinho doce com capacidade de envelhecer por décadas.

A região é pequena e o fungo ataca apenas parte do plantio, portanto, a seleção é manual, uma-a-uma, o que, é claro, encarece bastante o vinho. Além do que, não há tanta variedade destes vinhos no Brasil ainda, mas procurando em boas lojas do ramos você deve encontrar sem grandes dificuldades. Pela web, a Estação do Vinho oferece uma opção, o Mouton Cadet 2005 e a Mistral outra, Schröder & Schÿler 2006, . O ideal na minha opinião seria comprar garrafas pequenas, de 375 ml, já que como se toma em pouca quantidade, é possível servir bem até umas 6 pessoas. Aparentemente nenhuma das duas lojas oferecem as garrafinhas.

Apesar do preço, eu recomendo, experimente um Sauternes, faça suas harmonizações, descubra novos sabores e expanda o seu paladar.

E você, qual vinho de sobremesa já experimentou e recomenda?

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