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A evolução do (meu) paladar

Nosso paladar evolui, ou pelo menos, tirando o julgamento desta afirmação, nosso paladar muda. Meu gosto para vinho está mudando. Na verdade, ele sempre esteve mudando.

Quem acompanha o blog ou twitter já deve ter percebido uma certa tendência minha em preferir o velho mundo, ainda que tenha tomado e adorado muitos vinhos do novo mundo. Nunca tornei disto um impeditivo para experimentar coisas novas, mas simplesmente uma questão de preferência. É uma escolha necessária, por exemplo, imagine que você está andando com uma garrafa em cada mão e alguém te passa uma rasteira, qual deles você salva?. Assim mesmo, quase que como um ato reflexo. Mesmo que não goste de comparar vinhos diferentes eu sempre tive uma certa clareza de qual estilo me agrada mais. E é isso que está mudando.

Vejamos, se eu tivesse que montar um gráfico sobre esta “evolução” do meu gosto por vinhos, provavelmente escolheria os vetores Potência e Complexidade. E minha trajetória seria mais ou menos a seguinte:

Evolução Paladar - Força X Complexidade

Como Potência entenda a força do vinho. Isto pode ser ocasionado por vários fatores: tanino, álcool, carvalho (OAK monster!), muita fruta, especiaria… Ou tudo isso ao mesmo tempo. É aquela explosão de sabor ou intensidade de uma única sensação na boca.

Complexidade é bastante óbvio. Maior quantidade de sabores e sensações que um vinho pode despertar, de forma equilibrada.

Traduzindo isto em vinho foi mais ou menos assim. Não me lembro exatamente com qual idade, mas comecei a tomar vinho com meus pais, forte influência da família italiana com ótimas e fartas refeições, sempre acompanhadas de um bom (ou não) vinho italiano. Eram vinhos de mesa, Bardolino, Valpolicella, sem grande expressão e fáceis de beber. Ótimos para acompanhar comida. De vez em quando, em situações especiais, apareciam uns Barolos e Brunellos.

Quando eu realmente comecei a me interessar por vinho, por volta dos 22 anos, naturalmente surgiram os chilenos e argentinos, antes os argentinos que os chilenos. Malbec, um nome fácil de guardar com características tão fáceis quanto de serem reconhecidas. Assim era mais simples comparar um com o outro e dizer qual deles era “melhor”, ou pelo menos, qual me agradava mais. Logo em seguida vieram os Cabernet chilenos. Ah, que potência, quanta fruta! Fica ótimo em blends também, Merlot, Cabernet Franc, Carmenère. Muitos sabores e bastante complexidade. Brancos e espumantes, só para as moças, por favor!

Durante todas estas descobertas, sempre arrisquei um passeio pela Europa. Não sei se por influência do sangue italiano, da família ou simplesmente por teimosia. Adorava trazer um vinho europeu pra casa. Franceses, espanhóis, italianos. Quanta decepção. Descobri como é fácil comprar um vinho ruim por 70 reais. Mas também aprendi que este risco diminui com os portugueses

Porém, quando acertava na escolha, por indicação ou simplesmente sorte, eram pulos de alegria. É aquela sensação de “beber história” relatada por um amigo em um momento feliz ao deleitar-se com um grande Bordeaux.

Esta transição é curiosa, digo, do novo para o velho mundo. É difícil não se decepcionar com um vinho europeu quando nossa expectativa é “potência, intensidade, fruta, muita fruta madura, carvalho, álcool…” . Muitos vinhos europeus parecem “fracos”, “sem expressão”, principalmente numa faixa de preço mais acessível. As vezes realmente os são, mas é comum simplesmente esperarmos algo que aquele vinho não tem e não deveria mesmo ter para oferecer.

Atualmente, não muitos anos depois de ter começado, é ali, na letra B do gráfico que está minha preferência. Traduzindo em vinhos, Borgonhas, Rhône, Bordeaux, Loire, (é, ok, toda a França), mas também Barolos, Brunellos entre outros. E para minha grande surpresa, brancos e espumantes!

Claro que continuo tomando todos os outros vinhos. Antes de mais nada, adoro descobrir novas regiões, como recentemente, Califórnia e Oregon. Continuo procurando o bom e barato, seja da Argentina, Chile ou Brasil. E sempre procuro descobrir novos sabores, Grécia, Israel, Hungria… Mas se qualquer dia destes, saindo feliz e contente após uma boa compra de vinhos levar uma rasteira, bem, você já sabe o que eu vou agarrar!

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Dois Bordeaux, um argentino e um francês

Sumiço é a palavra que descreve o meu comportamento para com este blog. Peço perdão. Quem me acompanha no twitter sabe que continuo tomando vinho, falando sobre eles e conversando com todo mundo que se interessa pelo assunto. E quem me conhece pessoalmente sabe o motivo que tem me mantido afastado e sabe também que a tendência é passar.

Bom, vamos ao que me leva a escrever para vocês. Noite especial com pessoas especiais e, é claro, vinhos especiais. Foram “dois Bordeaux”, um de Paulliac, Château Batailley 2005, Grand Cru Classe e outro, com a licença poética a que me concedo, o que considero ser o melhor vinho da melhor vinícola argentina: Catena Zapata Estiba Reservada, 2003. O primeiro, Bordeaux em todos os sentidos: origem, terroir, assamblage, e todas as características olfativas e palatáveis que cabem a um bom Grand Cru Classe. O segundo é o corte que teria tudo para ser francês e que costumo chamar de Bordeaux argentino: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Malbec, uvas de origem francesa, mas esta última gostou muito mais do clima sul americano. E com esta classe, elegância, potência e equilíbrio, Malbec, só nas mãos da família Catena e em terras argentinas.

O escolhido para estrear a noite foi o do novo mundo. Ordem arriscada, talvez, mas ainda acho que foi uma escolha correta. Este vinho é uma excelência em equilíbrio. Difícil encontrar uma equação tão perfeita de corpo do novo mundo com esta elegância e personalidade. Muita fruta vermelha, taninos presentes sem sobressair e final longo. Aromas bem definidos e agradáveis, maravilhoso.

Em seguida, tarefa difícil, um legítimo Bordeaux Paulliac, região que produz os vinhos mais bem encorpoados de Bordeaux. Famosos pela presença, mas ainda assim, mais discreto em comparação com o terroir argentino. Começou tímido, mesmo após boa espera no decanter. Mas passando o terceiro gole percebe-se o caminho que talvez apenas um grande Bordeaux pode proporcionar. Complexidade incrível de aromas maduros, frutas e tostado, praticamente sem madeira, restando apenas vanila e chocolate. Ele também carrega deliciosos sabores, presentes e marcantes. Mas são os aromas médios, aqueles transitórios entre aromas reconhecidos, que tornam este vinho um deleite. “Ele possui entrelinhas…” foi a melhor tradução que eu consegui no momento para explicar esta sensação. Ou seja, é um daqueles vinhos que você sabe que não há como descrevê-lo. Melhor encher a taça e aproveitar cada gota.

Dois gigantes… Ótimas expressões de novo e velho mundo. Cada um tem sua prateleira reservada em minha adega. E espero que não falte energia, ambos merecem muito respeito.

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Livros sobre vinhos, para ler e degustar

Há muitos livros sobre Vinhos, principalmente guias ou enciclopédias. É bom tê-los em casa para consultas ocasionais, mas como leitura mesmo eu gosto de romances que misturam História e Vinhos. E estes são bem mais raros, principalmente traduzidos para o português. Li dois recentemente que gostaria de compartilhar com vocês.

A Viúva Clicquot A Viúva Clicquot – A história de um império do Champanhe e da mulher que o construiu, de Tilar J. Mazzeo.

O título diz tudo. Pesquisa aparentemente tão profunda quanto possível para remontar a história de Barbe-Nicole Ponsardin, filha de comerciante burguês nascida em Reims, cidade próxima a Champagne. Criada para ser esposa aristocrata, passou anos difíceis em sua infância, fugindo da violenta revolução francesa.

Casou-se jovem com o sonhador François, filho de um poderoso comerciante têxtil que possuia grandes propriedades vinícolas em torno de Champagne. Na época, era um negócio secundário da família, que vendia as uvas para diversos produtores da região. O casal investiu tudo o que tinha e não tinha nas vinhas. Foram anos dificílimos durante as guerras e invasões do final do século 18 e início do 19. Somente após anos da morte do marido que a Viúva, com maestria na arte de produzir vinhos e fazer negócios, consolidou-se como a rainha do Champagne.

Grande parte da história foi perdida, mas com uma minuciosa pesquisa a autora americana, Tilar J. Mazzeo, consegue juntar os fatos mais importantes da época para narrar uma aventura contagiante da viúva em busca de um sonho. É uma aula sobre vinhos, Champagne, história e empreendedorismo que com um pouco de imaginação nos leva de volta a origem de, provavelmente, a região e o vinho mais famoso de todos os tempos. Leitura deliciosa, difícil largar o livro antes do fim – por R$31,00 na Livraria da Travessa.


O Vinho Mais Caro da História, de Benjamin Wallace O Vinho Mais Caro da História - Benajmin Wallace

É a partir de um Lafite, 1787, com as iniciais de Thomas Jefferson e o escândalo de sua venda em um leilão por incríveis 156 mil dólares que este romance policial se desenvolve. Grandes nomes do vinho, como Broadbend e Rodenstock, e todos os rótulos mais famosos do mundo são personagens deste livro, parte histórico, parte romance (e você nunca sabe qual parte é qual).

O livro revela os escândalos que assolaram o mundo dos leilões de vinhos milionários na década de 90 com uma inundação de falsificações. Como pouquíssimas pessoas são capazes de atestar com autoridade a qualidade e sabor de um vinho antigo, passaram-se décadas vendendo garrafas supostamente intactas e originais, encontradas em antigas adegas. Afinal, qual deveria ser o sabor de um Latour, 1865? Quem diria que não é original e, pior, como comprovar?

Para apreciadores de vinhos é um deleite imaginar as mega-degustações, promovidas principalmente por Rodenstock, na década de 90, com todos os grandes vinhos das melhores safras que sempre quisemos provar. Chateau Petrús, d`Yquem, Margaux, Chaval Blanc, Mouton-Rothschild, Romanée-Conti etc. Eram dias e dias de orgias gastronômicas inacreditáveis.

O livro demora um pouco para embalar e eu não diria que chega a ser um grande suspense. Não sei se empolga quem não se interessa tanto por vinhos, para os enófilos, é diversão garantida. Curioso para ver o filme que deve sair em breve, infelizmente não achei maiores detalhes sobre as gravações. Se você souber, deixe um comentário! – R$39,90 na livraria cultura

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Duc de Raybaud, 2007 – Pinot Noir, Provence – Espumante Rosé

Acabo de experimentar este delicioso espumante de Provence e não pude deixar de publicar o primeiro post sobre vinhos não tintos neste jovem blog. É uma falha, eu sei, mas é fiel ao meu hábito de consumo. Recentemente experimentei uma série de espumantes na faixa dos 30 – 40 reais e não consegui escolher nenhum para falar bem. Finalmente, um pouco acima deste preço, apresento um belíssimo representante da região de Provence, tão tradicional quanto o Champagne, ambos franceses.

Duc de Raybaud, 2007 - Pinot Noir - Provence França

Este jovem Rosé, de cor bastante alaranjada, tem todas as características de um bom espumante francês Brut. Lembrando que para o vinho ser Brut é necessário ter menos do que 15 gramas de açúcar residual por litro, ou seja, um vinho seco, bem diferente do nada seco Demi-sec (com 33-55 gramas por litro), vinho razoavelmente doce e injustamente mais apreciado aqui no Brasil. O Duc de Raybaud é bastante seco e com boa acidez. Um pouco de frutas vermelhas no nariz e bastante cítrico na boca. De olhos fechados é possível confundi-lo com um bom Champagne. Vinho refrescante, bom para aperitivos e canapés. Nesta noite acompanhou com classe uma massa ao molho rosé e camarões, inclusive a sobremesa, brigadeiro de chocolate com granulado, em colher. Um ótimo espumante coringa!

A notícia ruim é que não é fácil achá-lo. O importador é a http://www.kb-vinrose.com/ no Rio de Janeiro, com representação pela http://www.brbebidas.com.br/ em São Paulo. Não sei exatamente o valor, mas é em torno de R$ 55,00 no varejo.

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